Sinta-se em casa!

Entre e deixe a porta aberta.
Aguenta firme que vou ali pegar uma breja.

19 de nov de 2008

Ciranda Cirandinha


Amanhã, quinta-feira (ou hoje, já que são 4:30 AM) eu tenho planos em não dormir em casa. O pensamento de hoje não é sobre isso, mas não posso evitar em desabafar minha agonia com quem lê este blog (desculpe por te usar assim cherry).

No recente contato ele disse:
- Você não fica em casa nunca né?
Eu creio que tenha respondido:
- Fico, sempre!
Ele respondeu:
- Toda vez que te ligo, nunca está.

.....

Sim, eu tenho casa. E se deixar, eu fico a semana toda dentro do apê sem “colocar os pés na rua”.

Acontece que amigas convidam para ocasiões que eu não resisto: colocar o papo em dia, assistir filme espanhol, fazer caixinhas, comer comida mexicana e tomar refrigerante típico de Guarulhos (rs).

Daí não tem como dizer não.

Mas isso foi só um desabafo para justificar o pq de 2 post´s em uma noite só. Para compensar minha ausência amanhã.

O texto anterior que tinha a intenção em mostrar o pq eu gosto do diferente, do chamativo, do exclusivo e da beleza que só poucos notam - eu naveguei (e tentei fazer o mesmo com você) na minha infância.

Confesso que não consigo lembrar com tanta clareza da linha do tempo dos meus 11 aos 20 anos como consigo dos 7 aos 10.

Talvez a psicologia explique, mas eu sempre fui fascinada por animais de estimação.

Gatos (fêmeas e machos), de qualquer cor, eu sempre quis.
Tive muitos ao longo da vida com os nomes dignos de bula de remédio: Guinintrus, Sansão, Bebino, Gatunizia, Petúnia Mirur, o atual Didico (apelido dado por mim), e outros que não lembro.Teve tb a querida dog Lilica (hoje uma senhora elegante).

Em todos eles tentamos enfeitá-los da melhor forma. Ter coleira sempre foi uma paixão coletiva, uma coleira de veludo, com nome e telefone. Bah! Foi só tentar colocar para quase perder a mão.

Eu e Lili pintávamos as unhas deles de vermelho. Colocávamos o óculos do pai e um babador de uma boneca velha. Muitas fotos para ficar na memória. Sempre eu queria que dormissem comigo, mas até hoje isso é tema de discussão (“falta de higiene, sua rinite” – mantras da minha mãe e do Gui).

Tinha o Rolf, um cachorro na cor sorvete de creme. Ele era meio nonsense mas um grande companheiro. Tínhamos um aquário com muitos peixes, pedras e bonecos mergulhadores. Adorava o “Limpa-vidro”. Esperava com angústia toda sexta-feira, dia de Feira para minha mãe ou pai comprar aqueles peixes sensíveis que vinham em um saquinho plástico. Digo sensíveis pq não sei dizer se eram fracos pq morriam logo ou eles não gostavam da hospitalidade da minha casa.

Mas a sensação da minha casa (todas as crianças que passaram por lá com certeza lembram esta notável sedutora):
Toti
Não sei a origem do nome. Muito menos o significado. Não sei a idade. Só sei que era velha e tinha um calo no casco devido uma queda por um pentelho da rua.

Uma tartaruga que se fosse humana daria bem em qualquer empresa por ser amável e flexível com todos.
Ela convivia bem com os gatos, peixes e Rolf.

Tão pacata que era, Sansão deitava em “forma de bolinho” sobre o casco dela, e assim ele ganhava carona pelo quintal sem nenhum aborrecimento.

Comer alface até hoje é motivo para resgatar na lembrança essa pequena. Sempre todo mundo guardava um pedaço para ela.

Tudo mudou após a mudança da casa para o apartamento. Não lembro que fim levou Rolf e o aquário. Bebino foi roubado, Sansão sumiu e a Toti, a única que tinha lugar bacana no apê fugiu durante o transporte dos móveis.

No apê tivemos um dog, a Nina que morreu após comer um passarinho em Porto Feliz e dois ratinhos (da Lilian). Por muito tempo ela achou que era um, mas o Bichinho (nome criativo, diga-se de passagem) morreu após minha mãe colocar a gaiola na varanda alegando “está muito quente aqui dentro”. Ele morreu = insolação.

Para a Lilian não cair em depressão, minha mãe comprou um rato igual ao Bichinho e colocou na gaiola do falecido, com a intenção da Lili não descobrir a verdade.

Mas Bichinho era um rato com o perfil da Lili. Pacato, não brincava com nada, comia pouco e tinha pouca locomoção. (ela não pode ler isso).

O substituto conseguiu fazer seu papel direitinho por poucos dias. Mas começou a comer freneticamente até virar uma bolinha de pêlos. E passou a ficar elétrico. Na madrugada ouvíamos ele girando na “RODA PARA HAMSTER” sem parar.

Lili ficou desconfiada pela mudança de personalidade do seu filho mas nunca quis uma C.P.I. do caso. Só foi saber da verdade por esses dias e ainda teve forças para ficar chocada por tamanha mentira.

O mais louco é que minhas 2 mães nunca foram fãs de bichos em casa mas nós, irresistíveis que somos desde aquela época, “dobrávamos” os corações dessas mulheres.

Nosso pai, sempre esteve do nosso lado sempre. Dizia que não enxergava problemas nisso.

Hoje só Lilica e Didico convivem conosco. Não sei se teria tantos bichinhos em casa devido a falta de tempo, mas acredito que todos eles foram fundamentais para mim, cada um ao seu modo. Acredito que Lili e Gui concordem comigo.

Todos foram bem recebidos em casa. Com muito amor e alegria.

E deixaram registrado como tatuagem, aquilo que conhecemos bem: o amor puro e verdadeiro.

Mudam e Permanecem!

Quem não conseguiu deixar recado aqui (agradeço os scraps no Orkut) eu acho que consegui liberar a restrição aqui (antes só podia comentar pessoas cadastradas no site).


A lembrança da minha infância tem aroma. Para compartilhar com você eis a receita: bolo de cenoura, limonada e dias de visita da madrinha, o tão gostoso bolinho de chuva.

Sempre tive medo de passar dos 10 anos de idade. Eu sempre soube que era feliz antes daquela idade. Era um Universo mágico (tirando a idéia em acordar cedo). Tantas pessoas importantes compartilharam este período e hoje não estão mais aqui (vô Agenor sempre falando dos meus cabelos cacheados, fumo de corda e ouvindo aquele som sertanejo perto da janela, da vó Vieira com aquele ar de despreocupação, do vô Sebastião com seu jeito imponente em pedir silêncio na hora do Jornal Nacional, do vô Antônio cochilando no sofá e do vô Joaquim que pouco convivi, mas lembro bem dele sentadinho na poltrona). Antes que você pense ou diga algo adianto: aqui está justificado, pelo número de vovôs que tenho - tudo em excesso me faz bem. Incluindo açúcar e amor.

Nesse tempo, morávamos na casa que um dia será minha novamente, um sobrado que dava asas a minha imaginação. Nunca fui de brincar na rua, as minhas idéias surgiam dentro de casa e era ali que fazia acontecer.

Nesse tempo de alegria, não estive imune (meus anticorpos nessa época estavam offline acho) a certas coisas da vida:





tive bronquite até meus doze anos, com direito a inalador em casa para qualquer estado de emergência, tive uma micose cruel nos 2 pés em minha viagem ao Norte do país (aos 7 anos de idade, de lá pra cá, depois que o médico diagnosticou que a micose supostamente teve origem por andar descalça nas ruas nunca mais consegui sair de casa de chinelo, só tênis. Você não terá a imagem minha comprando sandálias, um trauma ridículo). Tive caxumba, íngua, rinite e catapora. De todos esses inquilinos amáveis, apenas a rinite carrego comigo nos dias de hoje. Mas mamãe conseguiu não permitir que tivesse rubéola, sarampo, furúnculo e outras coisinhas desagradáveis.



Mas nada disso tirava minha vontade de brincar. Se deixasse, brincava o dia inteiro. E adorava brincar sozinha. Lilian deixou de brincar muito cedo e mergulhou no universo da música erudita, uma menina precoce. Gui até acompanhava as brincadeiras, mas logo queria jogar vídeo game. Tinha a Aline, filha de uma amiga da família (hoje pelo que sei está casada) que passava em casa para brincar comigo. Certos dias, ela faltava na missão de brincar e era aí que eu botava minha imaginação fértil para funcionar.





Colocava as bonecas enfileiradas na cama e dava ordens, como uma professora rígida. Chegava a gritar com as bonecas, minha mãe subia correndo a escada para ver se tinha acontecido algo e ao abrir a porta do quarto, deparava comigo e várias bonecas enfileiradas. Confesso que não sei qual a pior visão: um bandido no meu quarto ou uma filha insana. Nunca falamos sobre isso para evitar constrangimentos.



Não é nostalgia mas eu sempre gostei de brinquedos não muito populares (com exceção da Barbie). Sim, tive umas 10. Cuidava de cada uma com muito amor. Até o cabelo delas eu cortava.





Gostava do Jogo da Vida, do resta um, do lego genérico e do cara-maluca. Mas nenhum deles foi tão importante em minha vida como o FEIJÃOZINHO.



Sim, este é o nome original do boneco da Lilian, e fica registrado aqui que sempre tive apreço por nomes exóticos.



A foto é da internet e não do meu. Como escrevo este post na madrugada de quarta para quinta-feira, não tenho como procurar nas fotos antigas no quarto da minha mãe para mostrar à vc. Mas prometo que amanhã farei isso com o maior prazer.



E na solidão da brincadeira, o imaginário para mim era mais que real. Não havia desligamento nisso. E por falar em adaptação e invenção que surgiu a idéia do pensamento de hoje.



Nunca gostei das bonecas que pareciam bebês, ainda mais aquelas (sim, sou da década de 80 jovens!) que tinham buraquinhos nas costas que quando você virava a boneca de cabeça para baixo ela emitia um som (para mim) medonho. Não fazia sentido, por isso não gostava delas. Elas abortavam qualquer roteiro meu com sua falta de originalidade e olhos piscantes.



E quando eu, em um dos meus roteiros infantis dei falta de um namorado para as minhas 10 Barbie´s, meu pai teve que entrar em ação. Nunca soube pq não ganhei o Ken (o famoso namorado da Barbie, já estão comemorando Bodas de sei-lá-o-quê de anos de casamento).





A única lembrança que tenho é que meu pai fez do FEIJÃOZINHO o protagonista das minhas histórias de romance.



Um substituto para Ken precisava ter o porte físico, aquele cabelo imóvel porém bonito e um figurino impecável. FEIJÃOZINHO, como vcs podem observar na foto, passa longe de qualquer requisito desses. Um boneco fofucho, de pano, recheado por bolinhas de isopor, um sorriso malandro e um cabelo digamos, no mínimo estranho.






Não sei qual foi o argumento do meu pai que tenha convencido que aquele seria um belo par para as 10 Barbie´s. A única coisa que sei é que foi amor a primeira vista.



E o cabelo do FEIJÃOZINHO era muito brega para elas. Eu e meu pai decidimos dar um look novo. Raspamos e aderimos ao lema “dos carecas que elas gostam mais”. Elas (as bonecas) aprovaram o visual novo do gordinho de pano as não por muito tempo.





Certo dia, pedi para meu pai que devolvesse os cabelos do FEIJÃOZINHO como antes. Nesse momento, mídias offlines em minhas lembranças que dão um pulo à cena 3:
Meu pai, com toda a calma do mundo, cortou a cabeça do FEIJÃOZINHO da mesma forma que cortava laranja para mim: a parte de baixo maior e a de cima menor – a famosa tampinha. Mas não conseguiu fazer o implante capilar e ficou assim mesmo.



Ao contrário do que meu pai pensou, eu tive um carinho imenso por esse boneco que teve 10 mulheres e uma cirurgia mal-sucedida.






Ahá! Se tivermos que datar minha fascinação por caras exóticos aí está à chave.






No fim, não sei que fim levou o FEIJÃOZINHO, mas com certeza ele é parte de um momento meu que guardo com carinho. Tempo que ter menos que 10 anos era ter responsabilidades e problemas gigantes dignos de um dramalhão infantil. E o "olhar" sobre o diferente como algo único e exclusivo. Acredito que esse sentimento carrego até hoje na escolha de muitas coisas.

Seguindo pensamentos do lindo Chico Buarque:

“Agora eu era o herói


E o meu cavalo só falava inglês
...
E pela minha lei


A gente era obrigado a ser feliz
...
Eu era o seu pião


O seu bicho preferido


Vem, me dê a mão


A gente agora já não tinha medo


No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
...
Agora era fatal


Que o faz-de-conta terminasse assim


Pra lá deste quintal


Era uma noite que não tem mais fim


Pois você sumiu no mundo sem me avisar


E agora eu era um louco a perguntar


O que é que a vida vai fazer de mim?”