Sinta-se em casa!

Entre e deixe a porta aberta.
Aguenta firme que vou ali pegar uma breja.

21 de mar de 2009

O encontro.

Juntei as 3 partes para facilitar.

Espero que gostem do texto da série "Minha vidinha démodé"

O começo.

Um som distante revelava o amanhecer. Ele acordou com a certeza que estava atrasado como de costume. Olhou para o relógio digital que piscava e mostrava o horário estranho: 00:15 h. Com a janela do quarto fechada, não conseguia saber se era dia, tarde ou noite. O relógio não era confiável no momento assim como o de ponteiro, nessa ocasião poderia ser meio dia ou meia noite. Provavelmente essa foi a hora que tenha acabado a energia ou aquela comum “queda de energia” como diria minha avó.
Ele ficou por alguns segundos pensando em mil coisas ao mesmo tempo. Imaginou o horário real, se tomaria banho ou não, em um relógio de backup que nunca pensou em ter ou qual explicação dar ao chefe.
Afinal, ao longo dos 15 anos de empresa, já deve ter matado muitos parentes em suas justificativas de falta ou atraso no trabalho. Mas isso não o tornava um funcionário ruim. Ele era mediano, aliás como em qualquer setor na sua vida. Nos tempos de infância, nenhum professor decorava seu nome, pois não era o aluno das melhores notas ou das piores. Isso acontece com todos que são assim. Eu pelo menos não lembro dos medianos que passaram em minha vida. Não era o bagunceiro ou o colorido. Na adolescência não aderiu a nenhuma tribo, sempre manteve o visual comum, típico daqueles que só usam roupas que foram repassados por primos e irmãos. Nunca fez uma tatuagem ou colocou um piercing. O cabelo era liso, castanho escuro e sem um penteado da moda. Dentes brancos, bem cuidados e sorriso cativante. Tirando sua acidez, sua arma de sedução era a risada fácil.
Tinha uma piada sempre na ponta-da-língua. Em velório de um amigo de infância, fora capaz em dizer à mãe do falecido:

- Pense pelo lado positivo. Adriano não precisará mais pagar as contas do mês e nem enxugar os dedos dos pés. Ele sempre reclamava disso.

A mãe conseguiu sorrir. Não sabemos se foi uma maneira educada em retribuir tal apoio ou simplesmente tenha achado graça.

Após levantar e dar os primeiros passos daquela quarta-feira nublada, ele decidiu fazer tudo sem pressa. Como estava atrasado, correr seria bobagem. Precisava de tempo para inventar a desculpa ou a verdade que faça com que o coordenador não tenha coragem em brigar por tamanha desenvoltura. Tomou banho, preparou a vitamina e ainda comeu um pão francês guardado há 3 dias no forno. Pegou o uniforme e vestiu sem pressa. Dono de apenas um par de sapatos colocou e reparou no furo pequeno que há tempos estava ganhando outras proporções. Ao invés de pensar em comprar um novo, pensou em como fazer com que o buraco não aumentasse. Isso define este sujeito. Ele não gosta do novo, procura inovar o que já tem. Assim como todos os setores de sua vida.
Um ônibus lotado, duas linhas do metrô e uma caminhada de 18 minutos. Era assim de segunda a sábado. Em dias de chuva isso mudava um pouco. No trabalho, deu sorte que o coordenador não havia dado “às caras” por lá. Não batia cartão. Ali o esquema era cara-a-cara.Trabalhou de forma mais rápida possível para ganhar o tempo perdido devido ao atraso. Ele tinha um chekclist muito grande e a cada “ok” escrito no papel um alívio memorável.
Dia longo. Dia rápido. Oscilava conforme as horas.
No caminho de volta para a casa ele não esperava tal encontro. Não houve tempo para atravessar a rua ou entrar em alguma loja para evitar conversas.
Aconteceu de forma rápida e brusca.
A única coisa que pôde pensar foi:
- Justo hoje em que o dia começou curto pode acabar longo demais.

O meio.

Ela chegou perto e lançou o sorriso contido que ele tanto conhecia. Segundos, minutos e horas passaram naqueles instantes. Impossível cronometrar. Essas coisas são assim. Ele apenas disse:

- Oi.

Ela retribuiu com a mesma frase pronta daqueles que não sabem puxar conversa de forma original:

- Oi. Tudo bem¿ Como está¿

- Bem. Um pouco cansado. Não gosto de reclamar, mas pra você isso não é problema. Afinal, uma psicóloga vive disso não¿

Ela riu.
Esse foi um dos motivos que o coração dele cedesse espaço para ela por tantos anos. Uma mulher que entendia o diferencial mesmo quando ele errava o momento certo em contar piada.

- Não sou mais. Quer dizer, não exerço tal função. Hoje vivo de artesanato. Ganhei bons contatos com as tardes no consultório. Bons amigos que indicaram meu novo dote. Decidi investir em mim. Deixar de escutar aos outros e ouvir meu Eu. Comecei a malhar e ter aulas de dança de salão. Homens exigentes no mercado.

Ela e muitas mulheres no mundo tem essa mania em mostrar aos “ex” certas coisas que não tem fundamento para eles como tem para elas. Tal informação era preciosa para um pseudo-ciúmes, mas ele, assim como muitos, apenas disse:

- Legal. Bom te ver. Não perca contato ok¿ Beijo. Tchau.

- Digo o mesmo. Apareça. Quer dizer...não suma.

A conversa foi interrompida por aquilo que ele tanto tentava esquecer: o amor.
Ali estava guardado o que o tempo não apagou. Apenas jogou para debaixo do tapete. E alguém levantou e fez questão em entregar ao proprietário.
O amor é assim, chega, conquista e segue em frente, seja para um novo ou velho amor. Ele não some, simplesmente acha uma direção.
Seguiu o trajeto de sempre, dos 15 anos de empresa. Jamais pensou em pegar outra avenida, outro ônibus ou um passo mais rápido. Quando o que você mais quer é ficar em silêncio, sempre tem alguém disposto a desafiar essa vontade e colocar à prova a sua paciência e anos de Yôga e Pilates.O porteiro demorou a atender o interfone. Ele insistiu com uma grande diferença de segundos de um toque para o outro.
Pura educação. Nada. Decidiu segurar o botão e ser o inconveniente. Portão abriu. Uma piada tão sem graça quanto às suas acontece:

- Calma. Quem tem pressa come cru. Envelhece rápido.

Não obteve resposta. Era assim que ele agia com quem muitos poderiam partir para a má educação. Indiferença. Cinismo, ironia e descaso faziam parte das suas armas de intriga. Não era barraqueiro.
Mas após passar pelo segundo portão da portaria, achou que era um momento bom e a pessoa certa para descarregar seu dia chato e o encontro que tanto quis evitar.

- Olá Seu Mendonça.

- Oi, calma aí. “Tchô” atender o interfone....

Ele aguardou porque não poderia perder a vítima assim como um vampiro encontra sangue fresco.

O fim.

Seu Mendonça acordou no seu dia de sorte. Demorou em resolver um problema de uma moradora, o que fez nosso personagem desistir em discutir com ele. Elevador não estava quebrado conforme seu pensamento pessimista. E nem a energia acabou. Não houve caos como nos filmes previsíveis da sessão da tarde. Entrou, sentou e pensou por que sua vida era tão mecânica e óbvia demais.
Culpa do signo? Do ascendente? Criado pela avó? Feitiço?
...
Abriu a gaveta para achar uma caneta para escrever um lembrete no post-it.
O caos surgiu.
Seus olhos permaneciam fixos no objeto.
Até a noite anterior isso não seria um problema.
Mas ele surgiu e trouxe velhas lembranças como aquela tampinha de cerveja da velha e boa marca.

Na parte de dentro, um pedaço de papel cortado de forma artesanal (dentes e unhas) escrito:

“Hordeum vulgare + você = prazer único”

Naquela simples tampa trouxe todo o encanto jamais perdido: a mania das palavras difíceis, a mania em ser diferente, a mania de somar tudo, a mania de surpreender nos detalhes, o hábito das comparações, a sensualidade e a certeza do desconhecido (a cerveja dona da tampa artesanal fora consumida no primeiro encontro).

Devolveu o objeto em seu lugar e foi rumo ao sofá.

Pediu uma pizza com cerveja.

...

Pegou dois copos e colocou a cerveja.
Bebeu os dois.
Descobriu que a dor da saudade não alivia quando o outro não está.

Dormiu antes mesmo de pensar nisso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário