Sinta-se em casa!

Entre e deixe a porta aberta.
Aguenta firme que vou ali pegar uma breja.

18 de jan de 2009

Insônia dá nisso...


Preguiça em colocar continuação do post anterior...

4 am.
Tesoura na mesa. Sem ponta.
Idéias mil por hora.
Espelho.
Forrar pia do banheiro com sacola do supermercado (mamãe adora pegar). Sustentabilidade nesse caso passa longe.
Pente.
Franja alinhada. Pronto. Corte feito.
Tesoura “desfiadeira”. Toda lateral também sendo cortada sem dó e nem piedade.
Sorriso no rosto.
Cagada geral.
Isso aconteceu após doses de Coca-Cola com pizza fria.

Unhas vermelhas.
Cabelo cortado.
Tudo feito por mim às 4 am.
Logo às 7 estou de pé pronta para trabalhar.

Sou assim. Imprevisível e noturna.

Uma tesoura na mão e uma idéia na cabeça.
Sou assim.

O início.

Um som distante revelava o amanhecer.
Ele acordou com a certeza que estava atrasado como de costume.
Olhou para o relógio digital que piscava e mostrava o horário estranho: 00:15 h.
Com a janela do quarto, não conseguia saber se era dia, tarde ou noite. O relógio não era confiável no momento assim como o de ponteiro, nessa ocasião poderia ser meio dia ou meia noite.

Provavelmente essa foi a hora que tenha acabado a energia ou aquela comum “queda de energia” como diria minha avó.
Ele ficou por alguns segundos pensando em mil coisas ao mesmo tempo. Imaginou o horário real, se tomaria banho ou não, em um relógio de backup que nunca pensou em ter ou qual explicação dar ao chefe. Afinal, ao longo dos 15 anos de empresa, já deve ter matado muitos parentes em suas justificativas de falta ou atraso no trabalho.

Mas isso não o tornava um funcionário ruim. Ele era mediano, aliás como em qualquer setor na sua vida. Nos tempos de infância, nenhum professor decorava seu nome, pois não era o aluno das melhores notas ou das piores. Isso acontece com todos que são assim. Eu pelo menos não lembro dos medianos que passaram em minha vida. Não era o bagunceiro ou o colorido. Na adolescência não aderiu a nenhuma tribo, sempre manteve o visual comum, típico daqueles que só usam roupas que foram repassados por primos e irmãos. Nunca fez uma tatuagem ou colocou um piercing. O cabelo era liso, castanho escuro e sem um penteado da moda. Dentes brancos, bem cuidados e sorriso cativante. Tirando sua acidez, sua arma de sedução era a risada fácil. Tinha uma piada sempre na ponta-da-língua. Em velório de um amigo de infância, fora capaz em dizer à mãe do falecido:

- Pense pelo lado positivo. Adriano não precisará mais pagar as contas do mês e nem enxugar os dedos dos pés. Ele sempre reclamava disso.

A mãe conseguiu sorrir. Não sabemos se foi uma maneira educada em retribuir tal apoio ou simplesmente tenha achado graça.
Após levantar e dar os primeiros passos daquela quarta-feira nublada, ele decidiu fazer tudo sem pressa. Como estava atrasado, correr seria bobagem. Precisava de tempo para inventar a desculpa ou a verdade que faça com que o coordenador não tenha coragem em brigar por tamanha desenvoltura.

Tomou banho, preparou a vitamina e ainda comeu um pão francês guardado há 3 dias no forno.
Pegou o uniforme e vestiu sem pressa. Dono de apenas um par de sapatos colocou e reparou no furo pequeno que há tempos estava ganhando outras proporções. Ao invés de pensar em comprar um novo, pensou em como fazer com que o buraco não aumentasse. Isso define este sujeito. Ele não gosta do novo, procura inovar o que já tem. Assim como todos os setores de sua vida.

Um ônibus lotado, duas linhas do metrô e uma caminhada de 18 minutos. Era assim de segunda à sábado. Em dias de chuva isso mudava um pouco. No trabalho, deu sorte que o coordenador não havia dado “às caras” por lá. Não batia cartão. Ali o esquema era cara-a-cara.

Trabalhou de forma mais rápida possível para ganhar o tempo perdido devido ao atraso. Ele tinha um chekclist muito grande e a cada “ok” escrito no papel um alívio memorável.

Dia longo. Dia rápido. Oscilava conforme as horas.

No caminho de volta para a casa ele não esperava tal encontro. Não houve tempo para atravessar a rua ou entrar em alguma loja para evitar conversas. Aconteceu de forma rápida e brusca. A única coisa que pôde pensar foi:

- Justo hoje em que o dia começou curto pode acabar longo demais.