Sinta-se em casa!

Entre e deixe a porta aberta.
Aguenta firme que vou ali pegar uma breja.

24 de jan de 2009

O Meio.

O meio.

Ela chegou perto e lançou o sorriso contido que ele tanto conhecia. Segundos, minutos e horas passaram naqueles instantes. Impossível cronometrar. Essas coisas são assim. Ele apenas disse:
- Oi.
Ela retribuiu com a mesma frase pronta daqueles que não sabe puxar conversa de forma original:
- Oi. Tudo bem¿ Como está¿
- Bem. Um pouco cansado. Não gosto de reclamar, mas pra você isso não é problema. Afinal, uma psicóloga vive disso não¿
Ela riu. Esse foi um dos motivos que o coração dele cedesse espaço para ela por tantos anos. Uma mulher que entendia o diferencial mesmo quando ele errava o momento certo em contar piada.

- Não sou mais. Quer dizer, não exerço tal função. Hoje vivo de artesanato. Ganhei bons contatos com as tardes no consultório. Bons amigos que indicaram meu novo dote. Decidi investir em mim. Deixar de escutar aos outros e ouvir meu Eu. Comecei a malhar e ter aulas de dança de salão. Homens exigentes no mercado.

Ela e muitas mulheres no mundo tem essa mania em mostrar aos “ex” certas coisas que não tem fundamento para eles como tem para elas. Tal informação era preciosa para um pseudo-ciúmes, mas ele, assim como muitos, apenas disse:
- Legal. Bom te ver. Não perca contato ok¿ Beijo. Tchau.
- Digo o mesmo. Apareça. Quer dizer...não suma.

A conversa foi interrompida por aquilo que ele tanto tentava esquecer: o amor.
Ali estava guardado o que o tempo não apagou. Apenas jogou para debaixo do tapete. E alguém levantou e fez questão em entregar ao proprietário. O amor é assim, chega, conquista e segue em frente, seja para um novo ou velho amor. Ele não some, simplesmente acha uma direção.

Seguiu o trajeto de sempre, dos 15 anos de empresa. Jamais pensou em pegar outra avenida, outro ônibus ou um passo mais rápido. Quando o que você mais quer é ficar em silêncio, sempre tem alguém disposto a desafiar essa vontade e colocar à prova a sua paciência e anos de Yôga e Pilates.

O porteiro demorou a atender o interfone. Ele insistiu com uma grande diferença de segundos de um toque para o outro. Pura educação. Nada. Decidiu segurar o botão e ser o inconveniente. Portão abriu. Uma piada tão sem graça quanto às suas acontece:
- Calma. Quem tem pressa come cru. Envelhece rápido.

Não obteve resposta. Era assim que ele agia com quem muitos poderiam partir para a má educação. Indiferença. Cinismo, ironia e descaso faziam parte das suas armas de intriga. Não era barraqueiro. Mas após passar pelo segundo portão da portaria, achou que era um momento bom e a pessoa certa para descarregar seu dia chato e o encontro que tanto quis evitar.
- Olá Seu Mendonça.
- Oi, calma aí. “Tchô” atender o interfone.
...
Ele aguardou porque não poderia perder a vítima assim como um vampiro encontra sangue fresco.

Sábado

Hoje descobri que no meio de tantas coisas que me deixam sem jeito, 2 delas ganharam espaço nesse sábado de céu fechado: pescoçudos e chorões.
Estava eu sentadinha no metrô rumo ao trabalho. Eis que olho para frente e percebo uma menina chorando. Minha nossa...como é difícil desviar o olhar. Fico a pensar qual motivo, como é estranho “segurar” as lágrimas (e não adianta olhar para a cima) e como isso chama a atenção. Os pescoçudos são aqueles que quando você lendo um livro, uma revista ou sei lá mais o quê, eles dividem a leitura de forma bruta e descarada. A vontade em fechar o livro, virar a página ou olhar feio é tamanha. Sim, sou uma monstra que não divide a leitura assim.

Pronto. Desabafei.

Sou tão chata quanto os pescoçudos e os chorões.