Sinta-se em casa!

Entre e deixe a porta aberta.
Aguenta firme que vou ali pegar uma breja.

4 de jun de 2009

CONTO.

Mais um dos contos “Minha vidinha démodé”

Os dois estavam sentados no banco antigo da casa de Dona Berê. Improvisados pedaços de madeira e tijolos. Ele foi construído quando o marido dela ainda era vivo. Talvez tenha sido uma maneira de passar as tardes diante aquela pequena e bonita casa amarela. Descrevê-la não é o suficiente, mas para não ser injusto à você que nunca a conheceu, acho que consigo juntar as palavrinhas.

O telhado era simples, desses que em dias de chuva não servem para muita coisa. Lembro de Dona Berê correndo com os baldes e colocando em todos (e poucos) cômodos da casa amarela. Ela tinha aquele altar pequeno sobre a porta principal, com uma luz azul bonita e instigante. Uma imagem de uma Santa protegia a casa.Um jardim simples fazia a moldura do terreno. Lá também viviam dois cachorros e algumas gaiolas vazias. Panelas velhas e talheres encardidos pela cozinha contrastavam com os pratos de porcelana (acredito que um dia foram parte do enxoval). Ela não tinha muitos móveis porém muitos enfeites de resina e gesso. Aquele quadro oval tinha o retrato do casal ainda jovem, desses artefatos que ainda não sei se é pintura ou foto, mas com o mesmo fundo verde que muitos outros quadros antigos que já vi nessa vida. Não possuía uma cadeira de balanço ou xales. Sabia fazer artesanato com crochê, tricô e ponto cruz como ninguém. Ela sempre manteve o velho sofá verde oliva. O cheiro da casa sempre fora o mesmo: chá de hortelã. Ela beirava seus setenta anos, mas aparentava uns oitenta, talvez por não ter cuidado da pele ou ter se preocupado demais com as coisas da vida. O tempo nem sempre perdoa os sujeitos de bom coração.

E lá estavam os dois. Ele olhou para o pequeno e pediu licença ao amarrar o cadarço. O menino fez cara feia e ele entendeu a razão de tal ato. Fez um sinal para que prestasse a atenção e ensinou de forma calma e bonita como fazer o laço. O menino demorou para aprender, mas foi naquela tarde que soube fazer um belo laço no cadarço. Aproveitou a boa vontade e pediu para ensiná-lo a jogar dominó. Dona Berê ao abrir o portão procurou não interromper a cena. Ela sabia que esse tipo de aprendizado não tem hora marcada para acontecer, mas quando ocorre, é preciso olhar e enxergar nossos primeiros esforços de muitos que estão por vir. Ela chorou daquela forma contida. Sabia que ali tão perto estava um amor. Lembrou quando fez o mesmo com ele. Não lembrava da importância do ensinar. E descobriu ali, diante da casa amarela, com aroma de chá de hortelã, que o amor vem de mansinho, mesmo que já exista, mas aparece nos pequenos gestos. Agradeceu por teu um filho e um neto tão especiais.
Dona Berê abraçou os dois e desejou que a vida lhe desse mais presentes como esse.